quinta-feira, 25 de abril de 2013

Terrorismo - 25/04


Calos alunos,

Quatro videos onde o professor de relações internacionais da PUC-SP fala sobre o terrorismo:


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DOCUMENTO DA ONU


Nos anos 90, o fim da Guerra Fria levou a um novo ambiente de segurança global, marcado pelo maior foco nas guerras internas do que nas guerras entre Estados. No início do século XXI surgiram novas ameaças globais. Os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos foram uma clara demonstração do desafio do terrorismo internacional, enquanto eventos posteriores aumentaram a preocupação com a proliferação de armas nucleares e os perigos de outras armas não convencionais.


As organizações do Sistema das Nações Unidas mobilizaram-se rapidamente em suas respectivas esferas para intensificar a luta contra o terrorismo. Em 28 de setembro o Conselho de Segurança adotou a Resolução 1373, nos termos de aplicação da Carta da ONU, para impedir o financiamento do terrorismo, criminalizar a coleta de fundos para este fim e congelar imediatamente os bens financeiros dos terroristas. Ele também estabeleceu um Comitê Antiterrorismo para supervisionar a implementação da resolução.


Os trágicos acontecimentos de 11 de setembro também revelaram o perigo potencial das armas de destruição em massa nas mãos de agentes não-estatais. O ataque poderia ter sido ainda mais devastador se os terroristas tivessem acesso a armas químicas, biológicas e nucleares. Refletindo estas preocupações, a Assembleia Geral adotou, em 2002, a Resolução 57/83, primeiro texto contendo medidas para impedir terroristas de conseguirem tais armas e seus meios de lançamento.


Em 2004, o Conselho de Segurança tomou sua primeira decisão formal sobre o perigo da proliferação de armas de destruição em massa, especialmente para os atores não-estatais. Agindo de acordo com as disposições da Carta, o Conselho adotou por unanimidade a Resolução 1540, obrigando os Estados a interromperem qualquer apoio a agente não-estatais para o desenvolvimento, aquisição, produção, posse, transporte, transferência ou uso de armas nucleares, biológicas e químicas e seus meios de entrega. Posteriormente, a Assembleia adotou a Convenção Internacional para a Supressão de Atos de Terrorismo Nuclear, aberta para assinatura em 2005.


O Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), localizado em Viena (Áustria), conduz o esforço internacional para combater o tráfico de drogas, o crime organizado e o terrorismo internacional. Ele analisa novas tendências da criminalidade e da justiça, desenvolve bancos de dados, divulga pesquisas globais, reúne e divulga informações, faz avaliações sobre as necessidades específicas de cada país e medidas de alerta sobre, por exemplo, o aumento do terrorismo.


Em 2002, o UNODC lançou seu Projeto Global contra o Terrorismo com a provisão de assistência técnica e jurídica aos países para tornarem-se parte e implementarem os 12instrumentos contra o terrorismo. Em janeiro de 2003, o UNODC expandiu suas atividades de cooperação técnica para fortalecer o regime legal contra o terrorismo, prestando assistência técnica e jurídica para os países em tornar-se parte e implementarem os instrumentos universais antiterrorismo.


Na esfera jurídica, a ONU e seus órgãos – como a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), a Organização Marítima Internacional (IMO) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – desenvolveram uma rede de acordos internacionais que constituem os instrumentos básicos legais contra o terrorismo.


Estes instrumentos incluem convenções sobre crimes cometidos a bordo de aeronaves; apoderamento ilícito de aeronaves; atos contra a segurança de civis; crimes contra pessoas protegidas internacionalmente, incluindo diplomáticos; proteção física dos materiais nucleares; e a marcação de explosivos plásticos para fins de detecção. Além disso, eles incluem protocolos sobre atos de violência em aeroportos da aviação civil internacional, e sobre os atos contra a segurança de plataformas fixas localizadas no continente.




Infelizmente, grandes ataques terroristas continuaram após o 11 de setembro – incluindo ataques à sede da ONU em Bagdá(agosto de 2003); em quatro trens em Madrid (março de 2004); num escritório e em apartamentos em Al-Khobar, na Arábia Saudita (maio 2004); no metrô de Londres (julho de 2005); numa zona litorânea e num centro comercial em Bali (outubro de 2005); em vários locais de Mumbai (novembro 2008); nos hotéis Marriott e Ritz-Carlton em Jacarta (julho 2009), e no metrô de Moscou (março 2010), para citar apenas alguns.


Como parte do esforço internacional para conter esta onda mortal, a Assembleia Geral adotou por unanimidade e lançou, em 2006, a Estratégia Antiterrorista Global da ONU. Baseada na convicção fundamental de que o terrorismo, em todas as suas formas, é inaceitável e não pode nunca ser justificado, a Estratégia define uma série de medidas específicas para combater o terrorismo em todas suas vertentes, em nível nacional, regional e internacional.


Atos criminosos pretendidos ou calculados para provocar um estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em indivíduos para fins políticos são injustificáveis em qualquer circunstância, independentemente das considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou de qualquer outra natureza que possam ser invocadas para justificá-los.




(Resolução 49/60 da Assembleia Geral, para. 3)






O Triângulo EUA-Irã-Al Qaeda ajuda a entender o terrorismo e os conflitos no Oriente Médio



Para compreender os conflitos no Oriente Médio e o terrorismo internacional é preciso observar o triângulo EUA-Irã-Al Qaeda. Os americanos são inimigos dos iranianos e da Al Qaeda. O regime de Teerã, por sua vez, é inimigo de Washington e da rede terrorista. A Al Qaeda, obviamente, é inimiga dos EUA e do Irã.


No Iraque, EUA e Irã estão do mesmo lado, embora com interesses diferentes. Ambos apoiam o governo de Nouri al Maliki. A Al Qaeda é adversária da atual administração em Bagdá.


Na Síria, EUA e a Al Qaeda buscam a queda do regime em Damasco, apesar de terem intenções distintas para o futuro dos sírios. Já o Irã é o maior aliado de Bashar al Assad.


Em Israel, Irã e Al Qaeda se posicionam contra os israelenses, ainda que a rede terrorista considere a Palestina uma questão secundária. Os EUA, por outro lado, é o maior aliado do governo em Jerusalém.


Resumindo, é um triângulo, no qual todos são inimigos entre si, mas que, algumas vezes, podem ter interesses comuns. 




Justiça, e não Drone, será usada contra Dzhokhar


Quando os Estados Unidos suspeitam de alguém ser envolvido com terrorismo no Yemen ou no Paquistão, um drone é enviado para um ataque seletivo contra esta pessoa supostamente ligada à Al Qaeda ou a outras organizações similares. Não existe um processo e tampouco garantia de que este indivíduo ou indivíduos realmente sejam envolvidos com planos de um ataque terrorista e representem uma ameaça a americanos.


Dzhokhar Tsarnaev, um dos suspeitos pelo atentado em Boston, tinha 19 anos, era carismático, bom atleta e estudava na Universidade de Massachusetts. Ele representava, porém, uma verdadeira ameaça aos EUA. De acordo com as próprias autoridades americanas, ele, junto com o irmão Tamerlan, realizou o ataque terrorista na maratona.


Naturalmente, muitos começaram a questionar sobre as diferenças entre Dzokhar e os suspeitos de terrorismo no Yemen. Ninguém usou um Drone para bombardear o barco onde ele estava escondido em Watertown, nos subúrbios de Boston. Muito menos contra a Universidade de Massachusetts, onde ele vivia em um dormitório estudantil. Afinal, o jovem terá direito a um julgamento na justiça civil. Além disso, no bombardeio, talvez os moradores das casas vizinhas ou seu roommate no dorm também morressem.


É admirável ver como a Justiça americana funciona, concedendo ao suspeito de terrorismo um defensor público formado em Yale e fluente em russo. Dzhokhar terá toda a chance de se defender das acusações e, se for o caso, até provar a sua inocência ou conseguir prisão perpétua em vez de pena de morte – o nigeriano que tentou explodir um avião em Detroit não pegou pena capital, por exemplo.


Pena que os moradores do Yemen e do Paquistão não têm o mesmo direito. Ser suspeito de terrorismo significa ser condenado à morte. Ser vizinho de um deles, idem.




Putin: terrorismo pode ser derrotado



A tragédia de Boston deve incentivar a Rússia e os Estados Unidos para unir esforços no combate ao terrorismo, disse o presidente russo, Vladimir Putin, respondendo a perguntas de cidadãos russos em sua entrevista anual transmitida ao vivo por rádio e TV.

“Exorto que esta tragédia nos estimule a bloquear ameaças comuns”, a mais perigosa das quais é o terrorismo, frisou Putin. “Se estivermos unidos, não iremos deixar passar tais golpes,” acredita o chefe de Estado russo.

“A Rússia também é um alvo do terrorismo internacional,” - salientou o presidente.




América face a novas formas de terrorismo


Uma semana depois dos atentados de Boston, as autoridades americanas falam abertamente de novas formas de terrorismo.

O departamento do Tesouro está particularmente envolvido no combate ao terrorismo financeiro que, através da lavagem de dinheiro e do tráfico de droga, tenta atacar o sistema no seu cerne.

O sub-secretário de Estado do Tesouro para o Terrorismo Finaceiro, David Cohen, deixa exemplos:

“O Hezbollah beneficia da rede de lavagem de dinheiro e faz lucros com o narcotráfico e com esquemas de branqueamento de capitais. Com estes fundos, o Hezbollah está envolvido em atos terroristas por todo o mundo”, acusa.


Os especialistas dos serviços secretos americanos sabem que a ligação do narcotráfico com o islamismo radical é cada vez mais estreita.


Como explica o agente da luta contra o narcotráfico, Derek Maltz, “os Estados que apoiam o terrorismo estão em declínio, em contrapartida, o terrorismo alimentado pelo tráfico de droga está a aumentar”.


Para além das redes poderosas e organizadas, com capacidade para ações espetaculares em larga escala, o mundo assiste ao recrudescimento dos chamados “lobos solitários”, de que os irmãos que alegadamente atacaram em Boston são um exemplo claro.


“O que sabemos é que estas pessoas são relativamente incompetentes, mas difíceis de detetar. Não representam o mesmo risco para a segurança que a al qaida. Não são capazes de destruir ou atacar grandes edifícios e provocar milhares de mortos”, diz o professor universitário Joseph Young.


Têm escassos meios mas escapam mais facilmente à vigilância e podem atacar onde menos se espera e essa é a preocupação dos americanos:


“Doze anos depois do 11 de setembro, a América entra numa nova era de terrorismo. O perigo dos “lobos solitários” e do terrorismo financeiro representam uma ameaça com a qual o país está a aprender a lidar. E o mais difícil é gerir o medo”, refere o repórter da euronews em Washingtom, Stefan Grobe.





A outra história do atentado em Boston: espetáculo em cinco atos




Postado em: 22 abr 2013 às 15:44

Cai a cortina. E, como em qualquer espetáculo teatral, o público aplaude os atores. Eles desfilam em seus carros com luzes que piscam vermelhas e azuis, os tanques antibombas passam sob um frenesi de uma sociedade que, desde 11 de setembro de 2001 vive a frustração por não ter conseguido caçar os terroristas que abalaram o orgulho nacional


Era Boston, início da tarde de 15 de abril, numa primavera sonolenta e ainda fria, quando dois irmãos saíram de casa. Nas costas carregavam um elemento cada dia mais demonizado pela sociedade americana: mochila. E essa tinha seus perigos. Ela transportava uma bomba. Caseira, rudimentar, de baixo impacto, de fácil feitura, numa panela de pressão. Mas continuava sendo uma bomba. E bombas, de nêutrons ou caseiras, são construídas com o mesmo objetivo. Para matar. Sempre.


Os jornais da cidade de Boston naquela segunda-feira, dia da “segunda maratona do mundo” (a primeira continua sendo a grega) trazem notícias corriqueiras., além do assunto do dia, a maratona . Nas primeiras páginas do jornais de Boston, New York, Washington, Chicago, Miami, nenhuma linha sobre o que acontecera na véspera, domingo, 14 de abril. Naquele dia, 30 pessoas, entre elas oito crianças, foram mortas por um drone no Afeganistão. A máquina da morte confundiu uma cerimônia de casamento com ato terrorista. Há quem concorde.


São 2h17min da tarde de 15 de abril na bela e culta cidade de Boston. Correrias, sirenes, multidão em polvorosa. A bomba havia explodido. Três pessoas são envolvidas em sacos plásticos. Mortas. Outras 160 se espalham pela rua interditada e pelas calçadas. Feridas. Comoção nacional. Não pelo drone que matou 30 pessoas inocentes. Mas pelo “ato terrorista” que matou três inocentes, entre eles um garoto e 160 feridos. Um deles, com pernas amputadas.


24 horas do atentado, nenhum suspeito. Nada. Nenhuma testemunha mas (as conjunções adversativas sempre mudam a história do mundo), surge a primeira imagem, um primeiro suspeito. Alguém que andava sobre os telhados na hora da maratona.


As especulações qual coriscos ensandecidos, riscam os céus de Miami, Chicago, Washington, New York e Boston. “Isso é coisa do Tea Party”, reclamam uns. “Parece que foi ação de quem é contra a alta de impostos”, bradam outros. Ninguém se lembra de que o Congresso dos EUA está, nesse momento, discutindo uma Lei de Migração menos draconiana. A discussão arrepia e traz pesadelos para a extrema direita e seu atual líder, senador pela Flórida, Marco Rúbio. Filho de cubanos fugidos da ilha nos 60.


Quarta-feira, 17 de abril. A câmera de um “anônimo” traz, finalmente, aquilo que mais de 300 milhões de americanos esperavam. A imagem de dois rapazes. Eles e suas e suas mochilas. Os dois próximo à lixeira onde a bomba fora deixada.


Ainda é 17 de abril. A voz da âncora da Fox News ecoa pelos ares de um país em pânico. Mas, antes de qualquer pronunciamento oficial, a âncora da Fox News canal de televisão de Rupert Murdoch (a mesma que se recusou a acreditar na reeleição de Obama) deixa escapar o cheiro da panela. Um cheiro de Islam servido num samovar.
17 de abril, em Boston, a câmera com imagem dos dois irmãos, de nomes impronunciáveis no Ocidente, se junta a outras câmeras. A CIA entra em ação para ampliar as imagens que mais a interessavam A dos dois irmãos. A Polícia de Boston nega ter feito a captura de qualquer suspeito.


Já é quinta-feira, 18 de abril. CNN, com seu noticiário desbotado e Fox News exigindo vingança passam a centralizar o noticiário na busca dos “terroristas”. Às nove da noite desse dia, as imagens dos dois irmãos surge nas telas das redes sociais com a tarja “Wanted” (Procurados). A mesma tarja utilizada na colonização da costa Oeste do país para encontrar pistoleiros ou ladrões de gado, de banco…


Ainda é quinta-feira. Dez da noite. O lado Leste dos EUA já se entregou ao sono. A sociedade estadunidense dorme cedo. Mantém até hoje hábitos rurais, com algumas exceções. Na Fox News, uma voz embargada de emoção anuncia que uma loja de conveniências foi assaltada. Eram os dois irmãos. Eles também fizeram um refém, o dono de uma Mercedes SUV (Sport Utility Vehicule), um jeep possante. O refém escapa enquanto os irmãos assaltam a loja. Nem o FBI, nem a CIA, nem a Polícia de Boston mostra a loja do assalto e muito menos o cidadão sequestrado.


A partir daí, a tarja “Wanted” pode ser substituída pela tarja “Fiction”. Ou, acredite, se quiser. Porque, nessa tragédia, com cinco mortos (os quatro pela bomba e um dos irmãos pela polícia) a verdade de substantivo abstrato, torna-se substantivo volátil.


10h30min da noite de quinta-feira, os dois irmãos, mesmo num carro possante, não tinham se afastado tanto do local do sequestro seguido de roubo. A Polícia cerca o carro. Uma câmera imóvel filma o tiroteio. O som dos tiros são nitidamente de armas do mesmo calibre. Mas a versão oficial informa que a polícia foi recebida com bombas, embora o vídeo de câmara parada não mostre nenhuma explosão.


O mais velho dos irmãos é preso (ou se entrega, ninguém sabe). E morre “a caminho do hospital”. Ou vocês pensavam que só bandido brasileiro morre a caminho do hospital depois de “intensa troca de tiros”?


O irmão caçula, ferido, consegue escapar. Deixa um rastro de sangue, mas a polícia não segue as pegadas frescas. Desloca-se para uma pacata cidadezinha, Watertown para vasculhar a casa onde, afirmam as autoridades, viviam os irmãos. A essa altura, o telespectador já sabe que eles são estrangeiros. Vieram da sofrida Chechênia, país localizado numa região onde a morte chega pelas mãos das tropas de ocupação do Afeganistão. Ou, pela arma mais abjeta criada pela indústria armamentista dos Estados Unidos, o drone.


Os repórteres, âncoras e comentaristas se entreolham decepcionados. Por que Chechênia? Afinal de contas, Chechênia, é um país invadido pela Rússia. Seus imigrantes têm direito ao status de “refugiados”. Ou seja, os dois estavam fugindo do antigo inimigo número um dos EUA, a poderosa União Soviética. Um fantasma que por mais de cinco décadas povoou os pesadelos dos americanos. Não fazia sentido, bradavam os analistas e especialistas em Segurança e Terrorismo.


Helicópteros, carros antibombas, agentes com colete do FBI, Polícia de Boston, sirenes incessantes. A casa é cercada. São 10h30 da manhã de 19 de abril. A caçada fora iniciada doze horas antes. O movimento é acompanhado por centenas de jornalistas e canais de TV. As ruas da cidade foram fechadas. Ninguém entra ou sai. Os vôos, cancelados. Boston e seus arredores transformam-se em cidades sitiadas. “Estou no meio da guerra” dizia ao microfone um repórter da Fox News num cenário onde não se via carros ou pessoas.


Pé ante pé, rodeados por câmeras de grandes e pequenos canais de TV, batalhões de policiais, agentes do FBI, especialistas em desarmar bombas, helicópteros de guerra sobrevoam a pacata Watertown.


A âncora da Fox News baixa o tom de voz dramaticamente para dizer, “o procurado é uma pessoa de extrema periculosidade”. Ela está rouca e muito excitada. A polícia, qual seriado de TV, põe a arma em diagonal (nunca entendi porque as armas ficam na diagonal da mão quando a polícia busca criminosos). Chegam à casa onde viveriam os dois irmãos. Não se ouve nada. Nenhum som.


Frustração. Os policiais abandonam o interior a busca. E saem declarando que havia um verdadeiro arsenal dentro da casa vazia. E muitas bombas, algumas delas de alto poder destrutivo e que “exigem treinamento para sua fabricação. Não há imagens do arsenal.


Só um protesto diante da cena. A tia dos dois irmãos é advogada. Sem papas na língua. E vive no Canadá. Quando uma jornalista lhe pergunta o que acha do fato de seus sobrinhos terem bomba em casa, ela, voz firme, com forte sotaque do Leste europeu: “Evidências. Quero evidências de que havia bombas. Quem está informando sobre as bombas é o FBI e a CIA. Mas não há evidências”. E até agora as evidências continuam no anonimato.


Ninguém contesta a informação. Ninguém se pergunta por que os dois irmãos, “pessoas de extrema periculosidade” deixaram em casa bombas potentes e usaram uma outra de baixo impacto.


“Necessidade de treinamento para a fabricação”. A frase, parece solta ao acaso. Mas não se iludam. É o primeiro passo, o primeiro elo com o “terrorismo” (leia-se “terrorismo islâmico”).


14h30min de 19 de abril. A caçada continua sem pistas da pessoa de “extrema periculosidade”. A essa altura, na cozinha da Fox News, a panela de pressão assovia. Na tela o sinal de “Alert”, ou seja, vem notícia bombástica (sem trocadilhos).


E, para um público que, passivamente se deixa impregnar pelo noticiário como se fossem gansos alimentados para que seus fígados engordem e se transformem em paté de “foie gras”, a voz que alicia multidões diz que…tchan…tchan…tchan, o mais velho dos irmãos passou “seis meses na Chechênia.


Que absurdo! Como é que um checheno tem a ousadia de passar seis meses na Chechênia, mesmo morando no país mais rico e poderoso do planeta? Isso é crime. É sinal explícito de militância terrorista.


Mas ainda não era tudo. Os ponteiros do relógio avançavam. A caçada ia a passos de um velho celacanto. Nessa época do ano, o dia invade a noite. Só se deixa vencer quando não mais consegue provar o poder do sol.


As tropas tomam outra direção. Agora procuram um barco ancorado na terra. Lá está um adolescente. Ferido. Sangrando.


São 19h30 em Boston e seus arredores. A claridade é suficiente para encontrar filhotes de esquilo em mata fechada. Os helicópteros continuam vasculhando céu, terra. As tropas do país mais armado do mundo parecem perdidas. O bombardeio da Foz News sobre os gansos repete exaustivamente as mesmas informações. Em tons de filme macabro ou novela policial, os âncoras se revezam em adjetivos. Os gansos estão quase a ponto de virar patê de foie gras, explodindo de ódio contra os seguidores do Alcorão.


A luminosidade cede lugar às primeiras escuridões. A Fox News, num tom solene anuncia que o aparato policial “avança com cautela” porque quer pegar o irmão sobrevivente “vivo”. Como se fosse uma grande concessão.


21 horas. Já é noite de 19 de abril em Boston, em Watertown, Miami, New York e Washington. Em Chicago ainda há luz. A escuridão impede imagens nítidas mesmo para câmeras poderosas. E… “cantemos ao senhor”, a pessoa de “extrema periculosidade” é capturada. Está ferida. Perdeu muito sangue por quase 24 horas. Debruçados sobre um corpo magro, os paramédicos impedem telespectadores de olhar a cara do “terrorista” que é levado para o hospital. Os helicópteros com luzes infravermelho retornam à base.


Cai a cortina. E, como em qualquer espetáculo teatral, o público aplaude os atores. Eles desfilam em seus carros com luzes que piscam vermelhas e azuis, os tanques antibombas passam sob um frenesi de uma sociedade que, desde 11 de setembro de 2001 vive a frustração por não ter conseguido caçar os terroristas que abalaram o orgulho nacional.


O espetáculo que se encerra com os habitantes de toda uma cidade carregando flores ou velas protegidas por saco de papel cantando “God save America. My home, sweet home/ God save America/ my home sweet home, numa verdadeira catarse nacional.




Discurso do parlamentar belga LAURENT LOUIS na sessão do Parlamento de 22 / 01 / 2013:



Obrigado sr. Presidente. Prezados ministros e senhores colegas,


A Belgica é mesmo um pais de surrealismos. Esta manhã, soube pela midia que o exercito belga é incapaz de lutar contra alguns soldados extremistas com convicçoes islamicas radicais que existem no seu proprio exercito e que não podem ser desligados por falta de suporte legal. No entanto, ao mesmo tempo, decidimos ajudar a França em sua guerra contra o “terrorismo” oferecendo apoio logistico em sua operaçao no Mali. O que não faríamos para lutar contra o terrorismo do lado de fora das nossas fronteiras! Só espero que não enviemos pra esta operaçao anti-terrorista no Mali esses famoso soldados belgas islamicos.


Parece brincadeira, mas o que está acontecendo no mundo hoje nao me faz rir de maneira alguma. Não me faz rir, porque sem duvida, os lideres dos nossos paises ocidentais tomam as pessoas por imbecis, com ajuda e apoio da imprensa, que hoje em dia nada mais é do que um orgão de propaganda das classes dominantes. Em toda parte do mundo, as intervençoes militares e a desestabilizaçao de regimes estao cada vez mais frequentes. A guerra preventiva tornou-se a regra. E, atualmente, em nome da damocracia e da luta contra o terrorismo, nossos Estados se outorgam o direito de violar a soberania de paises independentes e derrubar regimes legitimos.


Temos o Iraque e o Afeganistão, as guerras da mentira americana. Depois tivemos a Tunisia, o Egito e a Libia, onde graças à decisao dos senhores, nosso país participou na linha de frente em crimes contra a humanidade. Em cada caso para derrubar regimes progressistas e moderados e para substitui-los por regimes islamiscos. Não é estranho?


A primeira medida deles foi de impor a lei Sharia. Isso é exatamente o que acontece na Síria onde a Bélgica está vergonhosamente financiando o armamento do exercito de rebeldes islâmicos que estão tentando derrubar Bashar Al Assad, Assim, no meio de uma crise econômica, enquanto mais e mais Belgas estao com dificuldades de para pagar por moradia, alimentaçao, aquecimento e assistencia médica.


E, sim, posso ouvir que populista sujo eu sou! Bem, o Ministro das Relações Exteriores decidiu oferecer aos rebeldes Sírios 9 milhões de euros! Naturalmente, eles vão tentar nos convencer que esse dinheiro vai ser usado para propósitos humanitários. Mais uma mentira!


E como vocês podem ver, por meses, nosso país está apenas participando para colocar no poder, regimes Islâmicos no Norte da Africa e no Oriente Médio. Portanto, quando eles vem e fingem ir para a guerra para lutar contra o terrorismo em Mali, bem, me dá vontade de rir. Isso é falso!


Sob a aparência de boas ações, nós só interferimos para defender interesses financeiros numa completa mentalidade neo-colonialista. Um real absurdo ir ajudar a França em Mali em nome da luta contra o terrorismo islâmico quando ao mesmo tempo, nós ajudamos na Síria rebeldes islâmicos a derrubar Bashar Al Assad que querem impor a lei Sharia, como foi feito na Tunísia e na Líbia Já está na hora de parar de mentir para nós tratando o povo como imbecis Chegou a hora de dizer a verdade.


Armando rebeldes islâmicos, como os ocidentais fizeram, no passado armando Bin Laden, aquele que era amigo dos americanos antes deles terem se virado contra ele, bem, os países ocidentais estão tendo a oportunidade de colocar bases militares nos países recentemente conquistados enquanto favorecem empresas nacionais.


Portanto tudo é estratégico. No Iraque, nossos aliados americanos, colocaram suas mãos nas riquezas petrolíferas do país. No Afeganistão, foi o ópio e as drogas sempre útil quando é para fazer muito dinheiro o mais rápido possível. Na Líbia, na Tunísia, no Egito, ou então de novo na Síria, a meta era e ainda hoje é derrubar poderes moderados, para substituí-los por forças islâmicas que rapidamente, se tornarão um problema e que nós sem vergonha nenhuma atacaremos fingindo mais uma vez, lutar contra o terrorismo ou proteger Israel. Assim, os próximos alvos já são conhecidos. Dentro de alguns meses, eu aposto que nossa atenção vai se voltar para Algéria e eventualmente para o Irã.


Ir para a guerra, para libertar povos de um agressor estrangeiro, é nobre Mas ir para a guerra para defender os interesses dos Estados Unidos, Ir para a guerra para defender os interesses de grandes empresas como a AREVA, ir para a guerra para colocar nossas mãos em minas de ouro, não tem nada de nobre mesmo e mostra como nossos países são os agressores e ladrões! Ninguém ousa falar, mas eu não vou me calar! e se minha batalha me faz parecer um inimigo desse sistema que alardeia os direitos humanos em nome de interesses econômicos, geo-estratégicos e neo-colonialistas, que assim seja!


(...)


E é por essa razão que eu decidi me opor claramente a essa resolução que está levando nosso país a ajudar a França em sua operação neo-colonialista. Desde o começo da operação Francesa, a mentira é organizada. … dito a nós que a França está apenas respondendo a um chamado de ajuda do Presidente de Mali. Nós quase nos esquecemos que esse presidente não tem legitimidade e que ele foi colocado no poder para garantir a transição após o golpe de estado de Março de 2012.


Quem deu suporte a esse golpe de estado? Quem o iniciou? Para quem esse Presidente de transição trabalha na verdade?


Essa é a primeira mentira! O Presidente Francês, François Hollande ousa fingir travar essa guerra para lutar contra os Jihadistas que ameaçam (oh, você percebe!) que ameaçam os territórios Francês e Europeu! Mas que mentira feia!


Ao usar esse argumento oficial, enquanto usando a oportunidade para assustar a população aumentando o nível de alerta ao terror, implementando o Plano Vigipirate nossos líderes e a Mídia estão demonstrando um ultraje inimaginável!


Como eles ousam usar tal ponto enquanto França e Bélgica não hesitaram em armar e ajudar Jihadistas na Líbia e que esses mesmos países continuam a ajudar esses Jihadistas na Síria. Esse pretexto esconde propósitos estratégicos e econômicos.


Nossos países não temem mais a inconsistência porque é feito de tudo para esconder isso. Mas a inconsistência está bem presente. Não será amanhã que vocês verão um cidadão de Mali cometer um ato de terrorismo na Europa.


Não! A não ser que de repente nós criássemos um então poderemos justificar essa operação militar. Nós não criamos o 11 de Setembro, afinal, para justificar as invasões, prisões arbitrárias, tortura e o massacre de populações inocentes?


Assim, criar um terrorista Mali não é grande coisa! não deve ser tão complicado para nossos líderes sanguinários.


Outro pretexto usado nesses meses recentes para justificar operações militares, é a proteção dos direitos humanos. Ah! Esse pretexto é usado ainda hoje para justificar a guerra em Mali.


Mas sim! nós temos que agir, caso contrário os islâmicos do mal vão impor a lei Sharia em Mali, apedrejando mulheres e cortando as mãos dos ladrões.


A intenção é nobre. Nobre e salutar com certeza. Mas então porque isso, meu bom Deus, porque é que nossos países contribuíram na Tunísia e na Líbia para a ascenção ao poder pelos islâmicos que decidiram aplicar essa mesma Lei Sharia nesses países o qual ainda eram até pouco tempo atrás, modernos e progressistas?


Eu os convido a perguntar aos jovens Tunisianos quem lançou a revolução na Tunísia, se eles estão felizes com sua atual situação? Isso é tudo hipocrisia. O propósito dessa guerra em Mali é bem claro.


(...) O propósito é o de lutar contra a China e permitir aos nossos aliados americanos manterem sua presença na Africa e no Oriente Médio. Isso é o que guia essas operações neo-colonialistas.


E vocês vão ver, quando as operações militares terminarem, a França vai, é claro, manter sua base militar em Mali. Essas bases também irão beneficiar os americanos.


E ao mesmo tempo, como sempre tem sido o caso, corporações ocidentais colocarão suas mãos em contratos suculentos que irão mais uma vez privar os países re-colonizados de suas riquezas e matérias primas.


Então sejamos claros, os principais beneficiados dessa operação militar, serão os proprietários e acionistas da gigante Francesa AREVA que tem tentado por anos obter uma mina de Urânio em Falea, uma cidade de 17.000 habitantes localizada a 350 km de Bamako.


E eu não sei porque, mas meu dedinho está me dizendo que não vai demorar muito antes e a AREVA vai eventualmente explorar aquela mina! (...) E para aqueles que duvidam dos meus argumentos, Eu sinceramente os convido a aprender algo sobre as riquezas de Mali.


Mali é um grande produtor de ouro, mas recentemente foi designado recentemente, como sendo um país que oferece um ambiente de classe mundial para a exploração de Urânio.


Que estranho! Um passo adiante para uma guerra contra o Irã, é óbvio.


Por todas essas razões e para não cair nas armadilhas de mentiras as quais estão nos empurrando, Eu decidi não dar meu apoio para essa intervenção em Mali.


Portanto, eu vou votar contra. E fazendo isso, estou sendo consistente uma vez que, eu nunca apoiei no passado nossas intervenções criminosas na Líbia ou na Síria, e então sendo o único parlamentar nesse país a defender a não-interferência e a luta contra interesses obscuros.


Eu realmente penso que já é hora de colocar um fim em nossa participação nas Nações Unidas ou na OTAN e cair fora da zona do Euro se a Europa, ao invés de fornecer a paz se tornar uma arma de ataque e desestabilização de países soberanos submissos a interesses financeiros e não humanitários Finalmente, eu só posso insistir com nosso governo para lembrar ao Presidente Hollande as obrigações resultantes da Convenção de Genebra referente ao respeito aos prisioneiros de guerra.


De fato, eu fiquei chocado ao ouvir na televisão da boca do Presidente Francês que sua intenção era de "destruir" Eu disse "destruir" - terroristas islâmicos.


Então, eu não quero que essa qualificação seja usada para nomear os oponentes do regime de Mali - sempre conveniente hoje em dia falar sobre terroristas islâmicos- usados para envolver as obrigações de qualquer estado democrático em termos de respeitar os direitos de prisioneiros de guerra. Nós esperamos tal respeito da Pátria dos direitos humanos.


Para terminar, deixem-me enfatizar como decidimos ir para a guerra tão facilmente Primeiro, o governo age sem nenhuma permissão do parlamento. Parece que ele tem o direito de fazer isso.


Ele envia equipamentos, homens para Mali O parlamento reage subsequentemente e quando responde, como hoje, bem, essa instituição parece ser composta de apenas 1/3 de seus membros.


Muito menos se nós falarmos dos discursos dos parlamentares franceses. E portanto, uma culpa leve o qual não me surpreende, vindo de um parlamento de cachorrinhos, submissos aos ditadores dos partidos políticos.


Obrigado.




Extras: 




sexta-feira, 5 de abril de 2013

Desvendando a América Latina - Documentário

Este documentário de quatro episódios produzido pelo National Geographic Channels International aborda os acontecimentos que definiram o atual panorama político e social da América Latina. Cada episódio aborda um assunto - indigenismo, imperialismo, populismo e ditadura - e analisa as raízes das tendências surgidas no século 20, examinando suas causas e seus efeitos, além da sua influência permanente.

Por meio do olhar do apresentador e de vários protagonistas e testemunhas da história recente, a série avalia as conseqüências de certos líderes e acontecimentos para latino-americanos com diferentes bagagens étnicas e culturais. Também reflete sobre como as novas formas de "indigenismo", "imperialismo", "populismo" e "ditadura" afetarão o futuro próximo.

O episódio sobre "Indigenismo" mostra os intensos movimentos que buscam reparar as injustiças sofridas pela população de descendentes de índios. O do"Imperialismo" aborda a relação complexa e traumática entre a América Latina e as grandes potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, a ex-União Soviética e a China, e as mudanças que esta relação sofreu até os dias de hoje. O episódio sobre "Populismo" avalia como a insatisfação dos cidadãos com a democracia e as grandes instituições do Estado abriu as portas para líderes que estão se colocando acima dessas instituições. E o sobre "Ditadura" investiga os legados das ditaduras de direita e de esquerda e mostra como a ditadura tradicional tem sido substituída por formas mais sutis de autoritarismo.

Fonte: NatGeo









quinta-feira, 21 de março de 2013

Conceitos Básicos ( 1ª aula )

Segue abaixo uma breve explicação sobre alguns termos comuns em noticiários, textos históricos ou textos sobre politica de forma geral.

Forma de governo = conjunto de instituições por meio do qual o Estado se organiza e exerce seu poder .

Diference-se em três critérios:

numero de titulares do poder
separação de poderes e suas relações
exercício limitado ou absolto do poder estatal

Temos três formas de governo clássicas :

Republica - O representante é escolhido pelo povo através de eleições diretas, é o chefe do Estado. Pode ser também chefe de governo (que é o chefe do poder executivo).

-republica presidencialista : o presidente eleito desempenha as duas funções, como no Brasil.
-republica parlamentarista : o presidente é o chefe do Estado, eleito pelo povo. O chefe de governo é eleito pelo poder legislativo ( parlamento, congresso, etc), é normalmente chamado 1º ministro. É o caso da Itália e da Alemanha.

Monarquia - Regime de governo em que o chefe de Estado é o monarca. Há os princípios básicos de hereditariedade e vitaliciedade (Pode haver algumas exceções, como no caso do Vaticano).
- monarquia parlamentarista, o monarca exerce a chefia de Estado, cujos poderes são apenas protocolares. A chefia de governo é exercida por um primeiro-ministro.

Anarquismo - contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita defendendo tipos de organizações horizontais e libertárias. O anarquismo não se relaciona com a prática da anomia. Os anarquistas rejeitam esta denominação, e o anarquismo enquanto teoria política nada tem a ver com o caos ou a bagunça.

Outras formas de governo:

*essas classificações não são estáticas, nem bem delimitadas. São representações de como o governo foi, na pratica, exercido ou a visão que se teve desse governo, e ainda, sinaliza a predominância de determinada ideologia.

- Autocracia:  Existe um único líder, comitê ou assembleia no controle de todos os níveis do governo.

  • Autoritarismo, fascismo, absolutismo, despotismo, ditadura , totalitarismo.
- Democracia : O poder pertente ao povo, que o delega a representantes votados por eles, por voto secreto, direto ou indireto. 

- Oligarquia:  O poder permanece nas mãos de poucos, de uma elite. 

- Teocracia: A lei do pais é submetida à religião, acontece em Estados não-laicos. 

Diferença entre esquerda e direita:

Direita: burguesa, elites governam através da concentração do capital com o setor bancário. Aliado aos interesses da elite, não intervem na economia.

Esquerda: Estado regido pelos trabalhadores e luta permanente no mundo pela revolução socialista,  coletivismo, igualitarista.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um chavismo sem Chávez é possível?


 por Steve Ellner
Economia profundamente reestruturada, apoio popular que o passar dos anos não erodiu, candidatos à sua sucessão... Uma derrota de Hugo Chávez nas eleições de 7 de outubro ou sua morte conduziriam ao fim do processo político ao qual ele deu início?

 "Um favor é sempre obtido em troca de outro”, admite Joanna Figueroa. Essa moradora de Viñedo, bairro popular da cidade costeira de Barcelona, no leste da Venezuela, prometeu trabalhar pela reeleição de Hugo Chávez desde que o Estado lhe proporcionou um teto por meio da Grande Missão Habitação, um ambicioso programa de moradia social. Ela própria construiu sua casa, em meio a uma “equipe de trabalhadores” formada por um pedreiro, um encanador e um eletricista nomeados por um conselho comunitário. Seu trabalho consistiu em misturar o cimento. “O amor que recebemos é pago pelo amor que damos de volta”, professa, retomando o lema em uso entre os partidários de Chávez. O sucesso desse refrão, ouvido em todo o país, reflete o vínculo emocional que existe entre muitos venezuelanos e seu presidente.

A eleição em 7 de outubro próximo cristaliza questões consideráveis. Embora o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski goste de se apresentar como um renovador, sem vieses ideológicos, ele também não deixa de pertencer ao conservador Partido da Justiça (PJ), que defende os interesses dos investidores privados e vê com desconfiança qualquer intervenção do Estado na economia. A oposição amadureceu, no entanto, desde seu golpe fracassado de 2002 e de sua decisão, tomada por despeito na esteira dos acontecimentos, de boicotar as eleições nacionais. Agora, seus líderes participam do processo eleitoral e demonstram apoio fervoroso à Constituição de 1999, aprovada por uma maioria esmagadora dos votos e a qual tinham rejeitado na época. Eles chegaram até mesmo a se unir em torno de um candidato comum, investido em fevereiro depois de uma primária.

O bom balanço da Missão Habitação, que forneceu um teto para milhares de famílias de baixa renda envolvendo-as na aplicação do programa no âmbito dos bairros, provavelmente contribui para a persistente popularidade de Chávez, que continua à frente nas pesquisas. A oposição tenta inutilmente proclamar que tem a vitória, mas um certo desencorajamento emerge. Figura influente da direita e adversário ferrenho de Chávez, o empresário da comunicação Rafael Poleo recentemente desautorizou a candidatura de Capriles, considerado “incapaz de ir aonde quer que seja”. A declaração se seguiu à publicação em maio de uma pesquisa de opinião que dava 43,6% dos votos ao presidente em exercício, contra apenas 27,7% para Capriles. O balanço do governo Chávez recolheu por sua vez 62% de opiniões favoráveis − uma pílula que se torna ainda mais amarga quando se sabe que o autor da pesquisa, o Instituto Datanalisis, pertence a Vicente Leon, fiel partidário da oposição.

A popularidade que Chávez parece usufruir não deixa de surpreender, dados os seus treze anos de poder e o cansaço que tal longevidade instala necessariamente na opinião pública. Sua candidatura poderia sofrer de incertezas relacionadas ao seu câncer, tornado público em 30 de junho de 2011 (sem que tenham sido revelados o local e a gravidade da doença). A oposição também não deixou de denunciar a falta de visão do presidente, que se recusou a nomear um substituto capaz de assegurar a continuidade do poder em caso de vacância precipitada. Dentro e fora do país, os meios de comunicação próximos aos negócios exploram de bom grado os problemas de saúde do chefe de Estado venezuelano para minorar suas chances de reeleição. Como indica um estudo realizado pelo jornalista Keane Bhatt, o duelo sob os trópicos entre a “fragilidade de Chávez” e a “energia juvenil” de Capriles se impôs como um clássico na produção da Reuters, da Associated Press e do Miami Herald.1

A irrupção da doença também revive a espinhosa questão da liderança no seio do movimento de Chávez, que começa a reconhecer que a concentração do poder em suas mãos não tem só vantagens: enquanto seus ministros vêm e vão, o presidente – cujo retrato adorna quase todos os cartazes bolivarianos – reina como a única encarnação de um processo político que parece só depender dele.

Durante uma visita ao Brasil, em abril de 2010, um repórter perguntou a Chávez se ele planejava um dia dar lugar a outro dirigente: “Eu não tenho um sucessor em vista”, retrucou. É esse o caso ainda hoje? No ano passado, ele fez uma concessão a um de seus ex-assessores, o acadêmico espanhol Juan Carlos Monedero, que acabara de alertá-lo contra os perigos de um “hiperliderança” na Venezuela: “Eu preciso aprender a delegar mais poder”. Durante os períodos em que os tratamentos o afastavam dos negócios, vários políticos ocuparam o vazio e surgiram como potenciais sucessores. Notadamente, o atual ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, um ex-líder sindical que presidiu a comissão que esteve por trás da nova legislação trabalhista e que dispõe de sólidos apoios entre organizações dos trabalhadores. Ou ainda o vice-presidente executivo Elías Jaua, muito popular entre as bases militantes do movimento chavista. Sem mencionar o presidente da Assembleia Nacional, o pragmático Diosdado Cabello, um ex-tenente que tem fortes apoios no Exército. Apesar da onipresente tutela de Chávez, “alguns de nós pensamos que seria difícil continuar o processo”, explicou Monedero em maio passado. “Agora não temos mais esse medo, pois vejo dezenas de pessoas que poderiam continuar o trabalho sem o menor problema.”

Em direção ao socialismo

No caso de um terceiro mandato, o futuro político de Chávez dependerá sem dúvida da capacidade de seu staff de aprofundar as mudanças iniciadas, desenvolver novos programas sociais, fortalecer a base popular e lutar contra a insegurança.2 O caminho já percorrido não permite prever isso. Eleito pela primeira vez em dezembro de 1998, com um programa moderado concebido para apagar a imagem beligerante que estava colada a ele desde sua tentativa de golpe em 1992, o ex-encrenqueiro da Academia Militar de Caracas ficou ansioso para votar uma nova Constituição, lançar uma ampla reforma agrária e transformar a legislação social e econômica. Em 2005, ele proclamou sua conversão ao socialismo e nacionalizou os setores estratégicos da economia, tais como telecomunicações, bancos, eletricidade e aço. A partir de 2009, a “revolução bolivariana” começou a estender seu controle às empresas menores, mas cruciais para a vida diária da população. Acompanhada por uma escalada verbal contra a “burguesia”, a “oligarquia” e o “imperialismo norte-americano”, essa política de expropriação perseguiu, no entanto, um objetivo menos controverso: garantir a soberania alimentar do país.

Por meio de uma rede de empresas públicas, bens de primeira necessidade, como arroz, café, óleo ou leite, passaram a ser produzidos no local de consumo e estão disponíveis a preços acessíveis. Em junho, a Venezuela chegou a inaugurar sua primeira linha de produção de maionese à base de óleo de girassol. O estabelecimento de novos serviços públicos reconhecidos como eficientes – alimentação, bancos, telecomunicações – sugere que um Estado não é necessariamente incompetente para gerir empresas. A demonstração é menos convincente no caso de indústrias pesadas, como a do aço, do alumínio e do cimento, ainda atormentadas por conflitos sociais e pelas falhas da rede comercial. Assegurando ele próprio a venda de materiais de construção para os bairros carentes, sem passar por intermediários preocupados com suas margens de lucro, o governo espera resolver pelo menos parte do problema.

De acordo com a Comissão Econômica da Organização das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal), o índice de pobreza na Venezuela diminuiu 21% entre 1999 e 2010. Mas essa proposta de redistribuição em favor dos mais pobres não faz a felicidade das classes médias, que permanecem em sua maioria hostis ao presidente em fim de mandato. Se as pesquisas dão a este último um avanço de vinte pontos sobre seu rival, as proporções se invertem quando nos aproximamos dos bairros mais desenvolvidos. Entre os mais ricos, o bardo do bolivarismo muitas vezes desperta uma hostilidade visceral, em razão do medo – inteligentemente mantido pela oposição e pelos meios patronais – de que o governo acabe um dia por proibir a propriedade privada. Ao que se acrescenta em alguns casos um ressentimento em relação aos pobres, que parecem drenar para eles todas as benesses do Estado. O governo, no entanto, não economizou ações para as classes médias e altas, como a introdução de uma taxa de câmbio preferencial para viagens ao exterior.

Enquanto Chávez parece querer se destacar de certos excessos do passado, Capriles desempenha decididamente o papel de homem da renovação. Ele nunca perde a oportunidade de lembrar que tem apenas 40 anos e que, portanto, não é responsável por políticas desastrosas impostas aos venezuelanos antes de 1998 – mesmo que os partidos que estavam no comando na época o apoiem hoje. Em seus discursos, frequentemente associa a “velha maneira de fazer política” aos episódios de intolerância e de polarização que marcaram o país antes e depois da chegada ao poder de Chávez. Posando como um baluarte contra o sectarismo, ele promete não excluir programas sociais do atual governo, mas sim melhorá-los. Oferece, por exemplo, a colocação em votação de uma nova lei, chamada “Missões iguais para todos”, que garantiria aos cidadãos de todas as classes e de todos os rótulos políticos o acesso aos programas sociais. Entrevistado por um canal de TV privado em 1o de fevereiro de 2011, explicou: “O que é positivo no balanço de Chávez é que ele recolocou na ordem do dia a questão da luta contra a pobreza. Mas agora temos de ir mais longe e superar os meros discursos para acabar com esse flagelo”.

Sem dúvida alguma – os números da Cepal confirmam isso –, os programas sociais do governo venezuelano não se baseiam em “meros discursos”. Mas as propostas de Capriles (que corroboram as de Teodoro Petkoff, um ex-guerrilheiro que agora é porta-voz do establishment local) representam uma forma de vitória ideológica de Chávez. Elas também mostram que, aos olhos do candidato da oposição, o ex-tenente-coronel não seria talvez o ditador louco que os meios de comunicação privados denunciam há anos.

Se a oposição quase não contesta mais a eficácia da política social bolivariana, Chávez e Capriles assumem em contrapartida posições diametralmente opostas em matéria de política econômica. É em relação à questão das desapropriações que os dois lados combatem com mais virulência. Para os partidários de Chávez, a desapropriação é uma ferramenta para construir uma economia mista dedicada ao interesse geral, nomeadamente no que se refere à construção, aos bancos e à alimentação: abrindo uma brecha no domínio dos monopólios privados sobre esses setores vitais, o Estado pôs fim à escassez artificial que outrora os consumidores experimentavam. “Por que desta vez não se vê nenhum tipo de escassez, como as que atingiram o país durante os períodos eleitorais passados?”, perguntou recentemente o deputado Iran Aguilera, que é próximo de Chávez. “Porque as empresas do Estado preencheram o vazio que era criado com fins políticos pelo setor privado.”

 Oposição, currículo sob suspeita

A oposição, por sua vez, tem a intenção de devolver prontamente ao setor privado seus direitos inalienáveis. “Não pretendo discutir com empresários ou com mais ninguém sobre isso”, admite com franqueza Capriles. O favorito dos líderes empresariais argumenta que as empresas controladas pelo Estado têm visto sua produção cair, sem fornecer estatísticas para apoiar essa tese. Ele prefere enfatizar o retorno alardeado para os investidores estrangeiros, esperando que sua cornucópia lhe permita manter sua promessa cardeal: a criação de 3 milhões de postos de trabalho em seis anos. A ortodoxia liberal que permeia seu programa não poupa a Segurança Social, da qual o Estado perderia o controle em benefício de um sistema misto que daria ênfase à “poupança individual voluntária.” Por sua vez, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), a coligação heteróclita formada pelos partidos que apoiam Capriles, reclama uma “flexibilização” da lei que rege o controle estatal sobre a indústria do petróleo “para promover a concorrência e a participação do setor privado”.3

Bem de acordo com seu desejo de conquistar um amplo apoio, o candidato anti-Chávez não está seguro de que conseguirá seduzir muito além das classes médias que compõem a base de seu próprio partido, o PJ. Primeiro, porque ele veio de uma família de empresários que fizeram fortuna nos mais diversos setores, do mercado imobiliário à indústria, passando pelos meios de comunicação: um perfil pouco divulgado no seio da classe política venezuelana. Além disso, Capriles é ex-prefeito de Baruta, um gueto chique da Grande Caracas. Não dá para ter certeza que a imagem modesta e jovem que ele tenta impor a si próprio seja suficiente para compensar tal currículo entre os eleitores menos favorecidos, mesmo que eles estejam cansados de Chávez.
O líder da oposição nem sempre é ajudado por suas próprias tropas. Recentemente, o MUD atacou de frente a Missão Habitação, chamando de “fraude” e “fracasso” a desapropriação de terras para a criação de hábitats sociais. Uma ofensiva arriscada, tratando-se do programa de governo mais popular dos anos Chávez. De acordo com o ministro da Informação, Andrés Izarra, os primeiros objetivos foram alcançados com a construção de 200 mil moradias desde o lançamento do plano, em 2011.

Sem nunca esquecer seu passado militar, Chávez a apresentou como uma “guerra” que deveria mobilizar o conjunto do governo e do movimento bolivariano. Em alguns distritos, estudantes recebem uma bolsa para treinar “brigadas” responsáveis pela construção de casas. Mas o papel principal está com os 30 mil conselhos comunitários criados desde 2006. Eles são os únicos que empregam trabalhadores, qualificados ou não, e selecionam os beneficiários do programa. O contrato de “substituição das favelas por moradias dignas” estipula em que lugar e de acordo com quais padrões a nova casa deve ser construída. Cada trabalhador é pago no final do projeto, na forma de um cheque emitido por um banco nacionalizado, já que os pagamentos em espécie geraram malversações de fundos no passado. Além disso, medidas são tomadas para evitar que as casas sejam revendidas de forma especulativa. “Estamos em um processo de aprendizagem no qual os erros antes cometidos por falta de controle são corrigidos progressivamente”, explica Leandro Rodríguez, da Comissão de Participação Cidadã do Congresso Nacional.

Chávez escolheu oportunamente a data de 1o de maio, em pleno coração da campanha eleitoral, para aprovar o novo Código do Trabalho, última grande iniciativa de seu mandato. Os progressos que ele traz não são nada cosméticos: a redução do tempo de trabalho para quarenta horas por semana (contra 44 anteriormente), a proibição da terceirização em benefício da estabilidade de emprego e a extensão da licença-maternidade para 26 semanas (contra 18 anteriormente). O texto também restaura o antigo sistema de indenizações de licença, abolido em 1997 pelo governo liberal da época. A partir de agora, o trabalhador demitido receberá um bônus igual ao valor de seu salário mensal multiplicado pelo número de anos na empresa – uma reivindicação antiga dos sindicatos venezuelanos. Capriles protestou contra a nova lei, argumentando que isso não resolve o problema do desemprego ou da situação dos trabalhadores sem contrato de trabalho, privados da proteção social. Em seguida, explicou a natureza da queixa: “Chávez tirou da cartola essa lei para ajudá-lo a ganhar em 7 de outubro”.

 Reaproximação com os Estados Unidos

O resultado da eleição terá um grande impacto sobre todo o continente sul-americano. Capriles já prometeu restabelecer relações amistosas com os Estados Unidos, enquanto outros membros da oposição anunciavam uma revisão completa dos programas de ajuda e de cooperação firmados entre a Venezuela e alguns de seus vizinhos. Um acordo desse tipo também está previsto com a China, que forneceria empréstimos baratos em troca de petróleo. Finalmente, durante a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Caracas, em junho, Capriles não deixou de denunciar a aliança incomum com Teerã, exigindo que o governo “se preocupe em vez disso com os interesses da Venezuela, criando empregos para os venezuelanos”.

O ativismo pan-americano de Chávez resultou na criação de vários organismos supranacionais: a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) – presidida por seu homem de confiança, Alí Rodríguez Araque –, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), fundada em Caracas, em dezembro, e, finalmente, a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (Alba-TCP), que inclui, entre outros, Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua.4 Em junho, por iniciativa de Chávez, o bloco latino-americano condenou vivamente a deposição ilegal do presidente do Paraguai – de esquerda – Fernando Lugo, apontando a inércia dos Estados Unidos e do organismo por eles controlado, a Organização dos Estados Americanos (OEA). A resposta imediata do presidente venezuelano (convocação de seu embaixador no Paraguai, suspensão do fornecimento de petróleo) lhe valeu, mais uma vez, reclamações de Capriles.

 Diante da perspectiva de uma alternância em Caracas, uma impaciência febril tomou conta de Washington. Para a Casa Branca e a classe política norte-americana em sua grande maioria, Chávez continua sendo o inimigo público número um nessa parte do mundo. Três semanas antes de deixar a presidência do Banco Mundial, em junho, Robert Zoellick, resumiu a esperança geral: “Chávez está com os dias contados”. E alegremente previu que, privados da ajuda venezuelana, países como Cuba e Nicarágua em breve enfrentariam “tempos difíceis”. Esse cenário de sonho, acrescenta Zoellick, forneceria “uma oportunidade para transformar o hemisfério ocidental no primeiro hemisfério democrático”, em oposição ao “santuário de golpes de Estado, caudilhos e cocaína” que, segundo ele, o pesadelo bolivariano encarna. No início de 2012, o ensaísta Michael Penfold alertou na revista Foreign Affairs: “Se Chávez vencer em outubro, grande parte da oposição política venezuelana será esmagada. De muitas maneiras, isso será um retorno à estaca zero”.5

Mesmo entre os especialistas em América Latina, as comparações entre o presidente venezuelano e seus colegas de mesma sensibilidade raramente ficam a favor dele. Em um livro dedicado ao impulso dos movimentos de esquerda na América do Sul, os pesquisadores Maxwell Cameron e Kenneth Sharpe retratam Chávez com os traços de um déspota fervorosamente empenhado em “desmantelar as instituições políticas do Estado” e “criar um partido oficial servil”, enquanto o presidente boliviano Evo Morales simbolizaria um “movimento político em que a função do dirigente não consiste em monopolizar o poder”.6

Apenas um punhado de intelectuais acredita que Chávez fez melhor do que seus iguais na Bolívia, no Equador ou em outros lugares. Jeffrey Webber, um universitário engajado e coautor de outro livro sobre as esquerdas sul-americanas, chama Morales de “neoliberal reconstituído”, mas aplaude Chávez por ter “revivido a crítica ao neoliberalismo e recolocado na ordem do dia o debate sobre o socialismo”.7 Não é sem razão que os políticos e observadores de todos os matizes tendem a dar um tratamento especial ao regime venezuelano. Expropriações de grande amplitude, reformas para inverter a ordem liberal das coisas, redistribuição das receitas do petróleo, programas de cooperação para beneficiar países vizinhos mais pobres: poucos governos no mundo podem se orgulhar de ter impulsionado reformas tão audaciosas – ou também espoliadoras, dependendo do ponto de vista.

“Cinturão de esquerda” no continente

Uma nova vitória de Chávez em outubro poderia acelerar a dinâmica de transformação social em curso na Venezuela. Seu programa “Para uma administração bolivariana e socialista 2013-2019” defende a intervenção mais maciça do Estado nas áreas de comércio e transporte, por meio de “centros locais de distribuição para a venda direta de produtos”, que eliminaria intermediários e tornaria obsoleto o modelo de varejo dominante fora dali.

Outro objetivo: a extensão dos poderes democráticos exercidos pelos conselhos comunitários. Centenas de “comunas em construção” em todo o país, cada uma agrupando uma dúzia ou mais de conselhos, garantiriam serviços de utilidade pública, como a distribuição de gás ou de água. No total, as novas comunas representariam 68% da população. Elas disporiam das mesmas prerrogativas que o Estado e as prefeituras, sobretudo na elaboração dos orçamentos, no planejamento e na arrecadação dos impostos.

Em um nível mais amplo, a reeleição de Chávez consolidaria o “cinturão de esquerda” que atravessa a América Latina e restringiria assim a esfera de influência dos Estados Unidos. A ascensão das esquerdas na América do Sul nos últimos anos tem favorecido os processos de unificação no continente. Se a direita venceu a eleição no Chile, em 2009, ela não esperou muito tempo para que entrasse em colapso a popularidade do presidente Sebastián Piñera. No ano seguinte, a vitória na Colômbia do centrista Juan Manuel Santos augurava uma desventura semelhante, mas o novo presidente logo se juntou ao objetivo da união latino-americana defendido pela esquerda, chegando a se dar ao luxo de erguer o tom contra Washington em várias questões-chave.8 Apenas o Paraguai, depois da deposição do presidente Lugo, marcha atualmente na contramão de seus vizinhos.

Mas ainda é na Venezuela que a eleição de outubro assume seu significado mais decisivo. A derrota de Chávez resultaria – apesar do que diz seu rival – em levar o país para a situação de antes de 1998. Um novo mandato daria a seu reinado dezoito anos de idade; é muito, talvez demais. A transformação social de um país durante um período tão longo, sob a liderança de um chefe de Estado eleito democraticamente, representaria, no entanto, uma experiência sem equivalente na história.

Steve Ellner
Professor de História da Universidade de Oriente (Venezuela) e autor deRethinking Venezuelen politics Class, conflict amd the Chávez phenomenon, Lynne Riemmer. Boulder (Colorado), 2008.
Ilustração: Benett

1 Keane Bhatt, “Our man in Caracas: the U.S. media and Henrique Capriles” [Nosso homem em Caracas: a mídia dos Estados Unidos e Henrique Capriles], Nacla, 18 jun. 2012. Disponível em: www.nacla.org.
2 Ler Maurice Lemoine, “Caracas em chamas”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2010.
3 VenEconomía, Caracas, v.29, n.6, mar. 2012, p.2.
4 Steve Ellner, “Latin American unity takes center stage at Cartagena summit” [Unidade latino-americana toma o lugar central na Cúpula de Cartagena], Nacla, jul.-set. 2012.
5 Michael Penfold, “Capriles Radonski and the new Venezuelan opposition” [Capriles Radonski e a nova oposição venezuelana], Foreign Affairs, 26 jan. 2012. Disponível em: www.foreignaffairs.com.
6 Maxwell Cameron e Kenneth Sharpe, “Andean left turns. Constituent power and constitution making” [Esquerda andina ativa. Poder constituinte e fazer da Constituição]. In: Latin America’s left turns. Politics, policies and trajectories of change [Esquerda latino-americana ativa. Política, políticas e trajetórias de mudança], Lynne Rienner Publishers, Boulder, 2010, p.68 e 74.
7 Jeffery Webber, “Venezuela under Chávez. The prospects and limitations of twenty-first century socialism, 1999-2009” [Venezuela sob Chávez. Perspectivas e limitações do socialismo do século XXI, 1999-2009], Socialist Studies/Études Socialistes, Victoria, 2010; J. Webber, “From left-indigenous insurrection to reconstituted neoliberalism in Bolivia” [Da insurreição de indígenas de esquerda à reconstituição do neoliberalismo na Bolívia]. In: Barry Carr e J. Webber (orgs.), The new Latin American left. Cracks in the empire [A nova esquerda latino-americana. Rachaduras no império], Rowman and Littlefield, Lanham, 2012.
8 Ler “Histoire des gauches au pouvoir” [História das esquerdas no poder], Manière de Voir, n.124, ago-set. 2012.